Pensar a vida e viver o pensamento, de forma profunda e radical. Isso é filosofar.

Diálogo de Sócrates com Eutífron

      Leia atentamente, a seguir, o trecho inicial de um diálogo socrático denominado Eutífron (Platão, p. 39-44). Quem sabe ele possa inspirá-lo a procurar e ler esse e outros diálogos inteiros.


Resumo da parte inicial
    Sócrates encontra, à porta do tribunal de Atenas, Eutífron, conhecido como grande entendido em temas religiosos. O filósofo conta que sofre uma ação criminal em que é acusado de corromper os jovens inventando novos deuses e desacreditando os antigos.
      Eutífron, por sua vez, comenta que veio ao tribunal por ter apresentado uma acusação de homicídio contra o próprio pai. Conta que a vítima era um servo que, embriagado, degolou outro servo. O pai prendeu o homicida em um fosso, sem ter maiores cuidados com ele, enquanto esperava orientação do encarregado de justiça. Só que o servo assassino não aguentou o cativeiro e faleceu de frio e inanição. Assim, seu pai teria se tornado um homicida também, por omissão, no julgar do filho.
      Quando Eutífron afirma estar certo de que está agindo de maneira piedosa, isto é, conforme o dever para com os deuses, inicia-se a refutação socrática.


Sequência

"Sócrates: — Por Zeus, Eutífron, julgas saber com tanta precisão a opinião dos deuses a respeito do que é e não é piedoso, que não receie que, havendo as coisas sucedido como afirmas, possa cometer uma crueldade movendo esse processo contra teu pai?
Eutífron: — Assim, Sócrates, eu não teria utilidade e Eutífron não se distinguiria do mais comum dos homens se não tivesse conhecimento de todas essas coisas com precisão.
Sócrates: — Perceberás, por conseguinte, meu caro Eutífron, quão proveitoso para mim seria tornar-me teu discípulo, especialmente antes da ação judicial [...]
[...]
Sócrates: — Explica-me, então, o que consideras piedoso e ímpio [não piedoso].
Eutífron: — Digo que é piedoso isso mesmo que farei agora, pois em se tratando de homicídios ou roubos sacrílegos, ou qualquer outro crime, a piedade impõe o castigo do culpado, seja este pai, mãe ou outra pessoa qualquer; não agir assim é ímpio. [...]
[...]
Sócrates: — Pode ser que o seja, mas também existem muitas outras coisas, Eutífron, consideradas piedosas.
Eutífron: — Evidentemente que sim.
Sócrates: — Recorda, porém, que não te pedi para demonstrar-me uma ou duas dessas coisas, dessas que são piedosas, mas que me explicasse a natureza de todas as coisas piedosas. Porque disseste, salvo engano, que existe algo característico que faz com que todas as coisas ímpias sejam ímpias, e todas as coisas piedosas, piedosas. Recordas-te?
Eutífron: — Recordo-me.
Sócrates: — Pois bem, esse caráter distintivo é o que desejo que me esclareças, a fim de que, analisando-o com atenção e servindo-me dele como parâmetro, possa afirmar que tudo o que fazes, ou um outro, de igual maneira é piedoso, enquanto aquilo que se distingue disso não o é.
Eutífron: — Se é isso o que queres, dir-te-ei imediatamente.
Sócrates: — Em verdade, é só isso que desejo.
Eutífron: — É piedoso tudo aquilo que é agradável aos deuses, e ímpio o que a eles não agrada.
Sócrates: — Ótimo, Eutífron, respondeste agora como eu esperava que o fizesses, se o que afirmas é correto, embora eu não o saiba. Mas é evidente que me mostrarás que o que declaras é a pura verdade.
Eutífron: — Sim, claro.
Sócrates: — Muito bem, consideremos o que vamos dizer. Uma coisa e um homem que são agradáveis aos deuses são piedosos, ao passo que uma coisa e um homem detestados pelos deus são ímpios. [...]
Eutífron: — Sim.
[...]
Sócrates: — E não afirmaste também, Eutífron, que os deuses lutam entre si, que apresentam diferenças e detestam uns aos outros?
Eutífron: — Sim, afirmei.
Sócrates: — Mas quais são essas divergências que causam esses ódios e essas cóleras, estimado amigo?
[...]
Sócrates: — Então, qual seria o assunto que, por não ser passível de decisão, causaria entre nós inimizade e nos tornaria reciprocamente irritados? Pode ser que não esteja a teu alcance, mas considera, pelo que estou dizendo, se se trata do justo e do injusto, do belo e do feio, ou do bom e do mau. Com efeito, não é por causa disso que, justamente devido às nossas diferenças e por não poder conseguir uma decisão unânime, nos convertemos em inimigos uns dos outros [...]?
Eutífron: — De fato, Sócrates, eis aqui a divergência mais frequente e também as causas que lhe dão origem.
Sócrates: — Não acontecem igualmente as mesmas divergências entre os deuses e pelos mesmos motivos?
Eutífron: — Com toda a certeza.
[...]
Sócrates: — E não é verdade que aquilo que cada um deles julga bom e justo é também o que ama, e que o contrário lhe desagrada?
Eutífron: — Sim.
Sócrates: — Mas são as mesmas coisas, como afirmas, que uns reputam justas e outros injustas. De suas divergências acerca disso é que se originam as guerras e as discórdias entre eles, não é?
Eutífron: — De fato.
Sócrates: — Temos de afirmar, por conseguinte, que as mesmas coisas são amadas pelos deuses e que lhes são ao mesmo tempo agradáveis e desagradáveis.
Eutífron: — Parece que sim.
Sócrates: — O que significa, Eutífron, que algumas coisas poderão ser ao mesmo tempo piedosas e ímpias.
Eutífron: — É possível.
Sócrates: — Então, estimado amigo, não respondeste à minha pergunta. Pois pedi que me explicasses o que é [...] piedoso e ímpio. Porém vimos que o que agrada a alguns deuses pode desagradar a outros; portanto, querido Eutífron, não seria de espantar que aquilo que fazes ao castigar teu pai fosse agradável para Zeus, mas detestável para Cronos e Urano [...] e, da mesma maneira, agradável e desagradável para uns e outros deuses que divergem a respeito disso."

     
Quando não se restringe a uma mera confrontação de egos, o diálogo pode ser rico e proveitoso.

      Que sentido pode ter a conversação filosófica para você? O que mais lhe agrada nela ou qual seria a maior utilidade do ato de dialogar em sua vida? Procure elaborar uma lista de benefícios possíveis de um bom diálogo. Bom estudo.
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